Quarta-feira, 13 de Abril de 2016

...

Neste mar imenso,
Debaixo de água com os olhos turvos,
Todos parecem iguais
Está demasiado ameno o clima
E tudo o que é normal demais cansa

Cansa viver onde todos querem ser iguais
E o riso torna-se "inespontâneo"
E o grito está cada vez mais preso

Mas olhei para o lado e os teus olhos
Ah, eram os teus olhos
Então já não era preciso gritar nem ser amado
O meu riso voltou aquele lugar inesperado
E tu foste no tempo e no espaço
A paixão que me acordou e acordou o mar

O tempo já bate ao segundo
De quem vive ansioso por amar
Às escuras não sei quem és
Era impossível recordar a tua voz debaixo daquele mar

Passas na minha mente fragmentada
Pelos ideais que nos rodeavam
Não consegui encontrar naquele momento o caminho
Era tudo demasiado água

Mas olhei para o lado e os teus olhos
Ah, eram os teus olhos
Então já não era preciso gritar nem ser amado
O meu riso voltou aquele lugar inesperado
E tu foste no tempo e no espaço
A paixão que me acordou e acordou o mar

Não te vejo, não te encontro
Preciso desenhar-te sem faltar qualquer traço
Não me adormeças, não me prendas
Quero ficar aqui fora do mar
Mas olhei para o lado e os teus olhos
Ah, eram os teus olhos
Então já não era preciso gritar nem ser amado

Quero ficar aqui
E ser feliz

 

 

música: Eram os teus olhos - Martim Vicente ft. Carolina Deslandes

publicado por blue258 às 19:35
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Segunda-feira, 14 de Setembro de 2015

Hoje

Um belíssimo fim de tarde, em que podíamos sentir a chuva na terra, nas folhas, no ar. Os frutos que ainda se escondem por entre uma folha e outra, provam que o verão esteve aí. O imenso céu a perder de vista, o horizonte que mergulha no mar... toda aquela luminosidade em campo aberto e a promessa do frio. Aquele frio que chega devagarinho e se vai enroscando em ti. Envolve-te devagarinho, baila nos teus pés, enlaça-te e beija-te no pescoço. E uma lareira a crepitar, mantas e écharpes assaltam-te o pensamento como se de recordações tratassem. E tu pensas em voltar porque são quase 8 e agora os dias escurecem mais cedo. O frio que começa a ganhar terreno aos poucos, convida-te ao aconchego de casa. E tu pensas no frio que está a voltar... e naquele abraço. Na saudade de um abraço.


publicado por blue258 às 23:25
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Quarta-feira, 16 de Outubro de 2013

#53 ...

 

 

 

 

A casa.  Prática e funcional. Sólida. Elegante e despretensiosa. Um espaço encerrado nas memórias agora habitado pelo som do mar que invade a sala, o vento que percorre as traves de madeira, a luz que ainda ousa reluzir os tons vibrantes e a música que ecoa em cada pedra.  

 

Uma casa, uma história de peles. Escrita na pele pela sede, uma sede que  nunca se saciou, que se sacia a cada dia, que sorve o amanhã.

Uma história de reticencias, faladas, escritas, sentidas, nunca explicadas. Porque há coisas que simplesmente não se explicam.

 

Long days, short nights. Heart rate, sky high. Time flies. Come to me, you know what to do. You say the things that i wanted to hear. But i'm not sure if you are what i need...

Long days, short nights. Heart rate, sky high. Time flies. Can you hear that sound... It's the sound of my heart and it's beating just for you.                                    Hope you feel it too.

 

Uma casa agora vazia. Faltas tu, falto eu. Falta a minha pele na tua. Peles que se tocam, que se falam, que se adivinham a cada gesto. Agora resta o vazio.  A espera. O relógio conta os segundos. Os minutos. E a cada hora os dias tornam-se mais longos. O coração bate compassado com a cadência do mar e é dessa forma (apenas dessa forma) que ainda (sobre)vive. Porque o mar não morre. O mar não morre nunca!

Uma casa visitada por almas errantes que apenas saciam a sede, a sua própria sede, uma sede que se agarra às memórias como os moluscos se agarram às rochas negras. Que se entranha na pele. 

 

Aquela casa na praia, aquela, sem vizinhos por perto... 

 

 

música: Long Days - I wil, I swear

publicado por blue258 às 19:18
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Sexta-feira, 31 de Maio de 2013

"A Margem de Um Corpo de Água"

Sou água. Sou praia. Sou o sol e o mar. Sou o cristal de areia que o mar desenha na praia. Sou o salgado na tua pele morena. Sou o arrepio do vento na tua pele molhada, o brilho nos teus olhos, o beijo na tua boca.

 

Somos pele, apenas pele. Somos o calor de um abraço perdido nos grãos de uma ampulheta que marca o compasso das ondas e do tempo. Somos a cadência dos elementos. O brilho dourado do sol num mar de prata.

 

Somos a força das ondas. Intemporais.

 

 

As ondas serpenteiam num avanço sem fim, numa praia que se deixa rendida.  O mar, esse, não se rende, nunca se rende, não se quer render de indomável que é. Mas deixa-se perder e encantar. 

O luar ilumina agora a praia, que é o teu abraço. E eu sou cada cristal salgado na tua pele. Cada gota de água. Sou a tua pele. O teu abraço.


E eu sorrio, embalada pelas cadência das ondas que é o teu amor. 




*




      ________________________________


Este é um desafios mais interessantes que alguma vez encontrei na blogosfera: descrevam como seria a vossa margem - de um rio, um lago, o mar (tudo o que possa ter água) - tentando descrever cada pormenor, cada detalhe, presenteando o leitor com cor, aroma e sentimento.  Aqui a Blue não planeou nada, as palavras perspiraram gentilmente das pontas dos dedos e conduziram à praia, ao mar, ao abraço das peles salgadas. 


O desafio partiu da Bruna e eu não resisto a pedir que o levem e o façam, porque vale sempre a pena ler. E eu quero ler as vossas margens! Tenho em mim uma obrigatoriedade que me move a nomear a minha querida mvm - porque água me lembra sempre o rio e eu me lembro sempre de ti :) Passo o desafio à minha doce Dani, a uma Estrela brilhante, à  Sam, à Sara e à Droky Maria**. 



 * imagem retirada da internet


**(umas falta encontrá-las, outras, avisá-las) A Maggie, a Maria e a izzie parecem ter os blogues de férias -.-


publicado por blue258 às 05:36
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Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011

#52 Diz-me que me amas

 

 

Diz-me que me amas, em sussuro, ao ouvido. Olha-me nos olhos e sorri, com esse sorriso que me encanta... que me estilhaça a alma! Exala as palavras mais uma vez no meu pescoço. Escreve-as novamente nos meus ombros. Marca-as na minha pele. Tatua o meu corpo com o teu amor.

 

Envolve a minha pele na tua, enquanto que os lençóis voam ao sabor da paixão. Perde-me nos teus braços. Solta-me. Liberta-me. Enleva-me. Abraça-me: é nos teus braços que me quero encontrar de novo ao regressar. Ao voltar... e de cada vez que volto... a ti.

 

Deixa que a luz do sol me desperte. Não, não corras as cortinas. Não saias do meu lado, nem por instantes, não, não descoles o teu corpo do meu. Agora sou eu que te abraço. Que te envolvo. Que marco o teu corpo com amor. Deixa que a manhã nos encontre assim, por entre o tumulto dos lençóis.

 

O meu corpo, em cima do teu, segue a cadência do mar... aquela cadência que tantas vezes se impôs aos nossos corpos. A maresia desperta-nos os sentidos, e, não tarda nada, o mar revoltar-se-á por não acompanhar a cadência que descrevemos. As ondas quebram nos rochedos negros, e jazem depois, extenuadas, no areal molhado, na praia que espera por elas. Naquela praia. Naquele lugar. Junto à casa na praia, aquela, sem vizinhos por perto.  

 

 

E agora sou eu que te digo: meu amor, mais uma  vez... mais uma vez.

 

 

 

mas eu descobri a casa onde posso adormecer
eu já desvendei o mundo e o tempo de perder
aqui tudo é mais forte e há mais cores no céu maior
aqui tudo é tão novo e o que pode ser amor

e onde tudo morre tudo volta a nascer
em ti vejo o tempo que passou
vejo o sangue que correu
vejo a força que me deu quando tudo parou em ti
a tempestade que não há em ti
arrastando para o teu lugar e é em ti que vou ficar

já é dia e a luz está em tudo o que se vê
cá dentro não se ouve o que lá fora faz chover
na cidade que há em ti encontrei o meu lugar
e é em ti que vou ficar.

 

 

 

 

 

música: O Lugar - Tiago Bettencourt

publicado por blue258 às 12:59
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Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

...

 

pôr-do-sol | s. m.

 

Momento do dia em que o sol desaparece no horizonte.

 

 

 

O último de 2010.

 

 

O primeiro de 2011.

 

 


 

 

 


publicado por blue258 às 23:23
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Terça-feira, 9 de Novembro de 2010

There's no place like home. Nothing as the sea.

Tenho de ir a casa: faço-me à estrada, penso no mau tempo para conduzir, no mal-estar que sinto. Aguento: falta pouco. Chego e vou em direcção ao mar. Preciso de sentir a maresia, o vento, o frio. Preciso de me sentir viva. Preciso de abafar os pensamentos e lembrar-me de mim.

E é isso o que o mar faz: lembra-me de mim. E numa altura em que eu quis/quero/continuo a querer colo, o teu colo, fui até ao extremo, àquele sítio, aquele, onde o rio encontra o mar. Saio do carro. Sinto o vento forte. A humidade. O cheiro a maresia. Deixo que se entranhe em mim. O mar em mim. A força do mar. É nestas alturas em que temos de ir buscar forças bem dentro de nós, eu sei. E eu fui buscá-las ao mar. Deixei que o mar me lembrasse da minha própria força.

Nem as luzes vejo ao longe. Nada. Centro-me então no mar. Neste mar. No que me resta. No barulho ensurdecedor. Dor. Esqueço as luzes que não vejo e procuro o que está diante de mim. Vejo as águas da chuva cor de prata estendidas a meus pés. O céu, as nuvens que se reflectem nela. Viro-me novamente para o mar. Para o mundo que espera por mim.

Regresso com o sentimento que me pede para arregaçar as mangas e me diz que tenho de ser eu, e só eu, a pegar nos pedaços e a construir o que quero para mim.

 

 

 

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publicado por blue258 às 21:35
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Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010

Quase perfeito

O mar. A praia. A noite. O frio que pedia o calor dos teus braços.

 

 

 

 


Não me lembras o céu... Nem nada que se pareça
Não me lembras a lua... Nem nada que se escureça

Se um dia me sinto nua, tomara que a terra estremeça
Que a minha boca na tua... Eu confesso, não sai da cabeça

 

 


publicado por blue258 às 01:28
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Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010

# 51 Soulless or soulful

 

Trocamos o sofá pela cama. A luz das estrelas incide na clarabóia, projectando sombras aqui e ali, no quarto, nos lençóis, no meu corpo e no teu. O mar retumba no silêncio da noite. Ruge, querendo acordar a vida que há nos corpos extenuados. Nas almas exultadas.

 

Wake up
Look me in the eyes again
I need to feel your hand upon my face

 

Acordo e vejo-te dormir nos meus braços. Acaricio o contorno do teu rosto. A barba, aquela barba... Sorrio. Deslizo os dedos pelos teus lábios. Desenho carícias com a ponta dos dedos... na tua pele. Aproximo o rosto do teu: o teu perfume, o teu cheiro. O calor que emana do teu corpo. Beijo suavemente cada pálpebra adormecida. E deposito um beijo leve e doce nos teus lábios. Sorrio, e abraço-te forte. Acordo-te com um sorriso nos lábios e um sentimento que parece pulular em cada célula do meu corpo.

 

I think I might've inhaled you
I could feel you behind my eyes
You've gotten into my bloodstream
I could feel you floating in me

 

 

Pesa sobre mim o ritual do qual já te tornaste indissociável. Sucedem-se as imagens que conheço tão bem, repetidas vezes sem conta. O meu rosto no teu peito, naquele sítio, naquele. O teu cheiro, o teu perfume. A minha respiração que teima em te beijar o ombro, o pescoço. O meu olhar que segue os contornos do teu queixo, foge da tua boca, e vagarosamente, demoradamente, desenha a tua pele morena, só para depois desaguar no teu. A minha boca que se detém no teu beijo. Sorrio. A tua mão segura-me o rosto e os teus dedos acariciam os meus lábios. E esse sorriso malandro, esse, esse mesmo, esse sorriso maravilhoso, deliciado com a entrega desmesurada que sabes que é a minha. Gestos, rituais, tão próprios, tão teus, tão meus, tão... nossos.

Não falas. Sabes que comigo não é preciso falar. Sabes o que valem os silêncios comigo. Tanto, tanto... Ao veres o meu olhar embevecido - de que outra forma posso eu olhar para ti? - o teu abre-se num abraço, e sinto os teus braços rodearem-me e cingirem-me o corpo. E apertas-me, abarcas todo o meu ser nesse abraço. E eu estremeço, estremeço como se fosse de medo, mas não é de medo, é a certeza de todos os medos que me abandonam. Nos teus braços sinto-me segura. É o que me parece dizer-te a minha pele. Nos teus braços sinto-me segura.

Um abraço desenfreia o sangue adormecido, que aos poucos volta a circular frenético, quente, no meu corpo. Esse abraço não se move apenas pelo contacto da pele, pelo toque dos corpos, não. Esse abraço potencia o movimento do sangue no corpo, fazes do meu corpo o mar, do meu sangue, a força das marés. Tu... e esse abraço que é o teu.

 

 

 

música: Bloodstream - Stateless

publicado por blue258 às 00:14
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Quarta-feira, 20 de Outubro de 2010

One missed sunset

Hoje vi o pôr-do-sol, ou o que dele consegui ver, da janela do quarto. De um quarto qualquer - perdido numa cidade que já foi minha - agora  meu. Saio e vejo a lua quase cheia, mesmo à direita do Bom Jesus. A lua brilhante no céu negro, e a fachada pálida do santuário. Magnífico.

 

Falta-me o meu quarto. O meu. As minhas coisas. Os meus livros. Faltam-me os quase 97 gigas de música que tenho no pc de casa.

Sei (ou sinto) que me falta o pôr-do-sol, a praia, o mar, aquele cheiro a maresia. Disseram-me que terá outro sabor ao fim-de-semana. Vindo de quem veio, considero isso como uma promessa, e logo eu que não gosto de promessas, assumo como certo e garantido de que assim o será.

 

 


publicado por blue258 às 21:23
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Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010

My crimson sunset

 

©Blue258

 

 

 

Se há local que eu procuro quando quero acalmar as ideias, é a praia. A minha praia de eleição. Aquela praia. Aquela. Algo de muito particular sucede neste lugar perigosamente mágico. O silêncio ensurdecedor do mar. A força retemperadora das águas. A calma aparente da areia. O perdermos o olhar no horizonte para apenas o encontrarmos depois, ali.

É aqui que venho quando quero silenciar o que me assalta o pensamento. É aqui que encontro a calma e a serenidade que, por vezes, me parecem faltar. Quase sempre consigo deixar que o vento me trespasse o corpo. Que o marulhar me trespasse a alma. É um libertar e um esquecer simultâneos. Não sei como é possível este libertar e esquecer; penso que seja possível pelo facto de nos esquecermos de nós próprios,  mesmo que por breves momentos, ou de nos libertarmos daquilo que nos prende. Mas conseguimos. De alguma forma que eu não consigo precisar, conseguimos. Por vezes, e também não sei agora se pela aparente calma do mar nesse dia, se pela insurreição tenebrosa do nosso espírito nessa hora, há dias em que os pensamentos não são silenciados, não, assiste-se apenas a uma redução do volume, são como que colocados em segundo plano, reduzidos a barulho de fundo.

 

Se há momento que adoro, é mesmo o do  pôr-do-sol. Espero sentada, maravilhada. Deixo que o sol desapareça por completo. Aprecio as faixas avermelhadas que mantêm decididas a insinuação no horizonte. Provocam o azul do mar, que se mostra repetidamente mais negro. A noite que nos envolve por completo. O frio que nos diz ter chegado a hora de ir para casa. De partir, e deixar o mar para trás.

 

 


The time has come to cast these words from me
And take me to a place where I can be

 

And I’ve seen the crimson sunset shine a thousand times
And I’ve seen the oceans mystique, tide by tide
And I’ve seen all that’s there to be seen
But I can’t seem to find me

 


publicado por blue258 às 21:37
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Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010

O pôr-do-sol não espera por ninguém

 

©Blue258

 

 

Percorro mais de sessenta quilómetros, apenas para o ver. Para o encontrar, e com ele, abraçar o fim do dia.  O relógio, marca as sete e meia da tarde. As horas, que marcam o seu próprio compasso, outro diferente do meu, dizem-me atrasada. Encontro o mar negro de azul, o vermelho intenso do sol, o pálido branco da lua. E eu, teimosa, sussurro, cheguei, ao abraçar-te.

 

 

 

 

Fly me to the moon
Let me play among the stars
Let me see what spring is like
On Jupiter and Mars
In other words, hold my hand
In other words, darling, kiss me

 

música: Fly me to the moon - Diana Krall

publicado por blue258 às 21:47
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Domingo, 3 de Outubro de 2010

# 50 Arder... em fogo lento

O temporal ruge lá fora. Tal é o seu rugido, que o mar, escarpado, parece atacar inimigos invisíveis que se passeiam ao longo da costa. As folhas ainda verdes - poderosa resistência - são rasgadas pelo vento, sem piedade. As árvores balançam sob a batuta do vento, soltam raízes, apoiando-as desnudas na terra molhada.  Lá fora, toma lugar a batalha infernal dos elementos. Cá dentro, a madeira seca crepita na lareira. O teu corpo desnudo abraça o meu. Os corpos beijam-se continuamente no espaço exíguo do sofá. E nele passamos a noite. Nele começou o temporal que agora se arrasta lá fora.

 

 

 

 

 

 

 

música: Nude - Radiohead

publicado por blue258 às 16:21
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# 49 O cheiro da chuva

O vento perde-se em brincadeiras: enleva docemente as primeiras folhas caídas do Outono. Enleva-nos a todos na doçura do frio, este frio que é bom, que nos abraça no calor do nosso corpo.

Já as nuvens se movimentam no céu ainda azul - a chuva não tardará muito - dirijo-me para casa, embalada pela frente fria. O meu olhar perde-se ao longo da costa, no areal branco, no mar em tons de azul, nas rochas negras. Ergo o olhar, perco-me na imensidão do horizonte, deslizo pelo céu polvilhado de nuvens. Envolvo-me nos meus braços. O frio. Este frio bom que pede aconchego, pede o calor do teu abraço.

Sinto as primeiras gotas de chuva acariciarem-me o rosto. Uma delas desliza pela pálpebra direita; resvala nas pestanas e pende, e ali permanece, presa num hiato de tempo, querendo lançar-se no rosto e ao mesmo tempo querendo ali permanecer. Outra gota beija-me os lábios: prendo-a, lambendo os lábios e retendo o seu sabor. Deslizo a língua pelos lábios. Penso no teu sabor. Mordo os lábios. Demorarás muito a chegar? A casa, aquela, na praia, sem vizinhos por perto.

 

 

Down here the river, meets the sea
And in the sticky heat I can feel you open up to me
Love comes out of nowhere, baby, just like a hurricane
And it feels like rain and it feels like rain

Lying here underneath the stars right next to you
And I'm wondering who you are and how do you do? How do you do, baby?
Clouds roll in across the moon and the wind howl out your name
And it feels like rain and it feels like rain

 

Deixo a porta aberta para que os aromas de Outono se instalem, mesmo sem pedir licença. Sente-se a humidade no ambiente da sala. O cheiro da chuva que já cai lá fora. Aquela chuva boa, que cai como que sem querer. As cortinas corridas emolduram a vidraça  que espelha o extenso areal e o mar que o banha. Perco novamente o olhar no horizonte. Demorarás muito a chegar?

 

Oiço-te chegar. Estacionas o carro e já os teus passos se dirigem para a porta da frente. Aproveitas para entrar em casa, vendo o mar, absorvendo o cheiro a maresia, deixando que o salgado tempere a doçura do teu rosto. És como eu: amas este mar. Faz parte de ti, tal como de mim. Somos feitos do mesmo.

Saio para abraçar-te no alpendre. Recebes-me com um sorriso. Eu, com o coração. Ambos em silêncio; sabemos que chegaste a casa, e que agora sim, estou em casa. Eu sou tua e tu és meu. Passo as minhas mãos pelo teu rosto. Olho enlevada para o teu olhar profundo, para esse sorriso que me prende, passo a mão direita pelo teu cabelo, as pontas dos dedos brincam com as gotas de chuva. Seguras a minha mão esquerda com a tua, aproximas os lábios, e beijas-me a pele. O meu coração estremece. Eu sou tua e tu és meu.

A minha mão direita acaricia-te o rosto, os dedos tocam os teus lábios ao de leve. Deslizo pelo pescoço. Seguro-te pela nuca  e aproximo o meu corpo do teu. Absorvo o teu perfume, o teu cheiro, beijo-te com a respiração. Prendes-me junto a ti, envolves-me nesse teu abraço. Enlevas-me como faz o vento outonal. Sei amar-te. Rendo-me ao teu abraço. E rendida, beijo-te ao de leve nos lábios. Vejo nos teus olhos a cena que acabou de se passar, percebo como te deixaste estar, como compreendes este ritual que eu não consigo deixar de fazer. Vejo-te sereno, de sorriso nos lábios. És a minha fonte de serenidade. És. E eu sou tudo, nos teus braços. Pouso a cabeça no teu peito, naquele sítio, naquele. E é quando te digo, vamos, vamos para dentro.

 

Ao olhar-te de novo, embevecida, derretida, pegas-me ao colo e levas-me para a sala. Pousas-me delicadamente no sofá. Beijas-me na testa, nos olhos, no rosto, no queixo, no pescoço. Finalmente, sinto a tua boca na minha e já o meu corpo implode de desejo. Abraço-te ainda com mais força. Sinto o corpo a querer prender-te com todas as forças. A roupa voa pela sala, cai tranquilamente no chão, enquanto que a tempestade, essa, somos nós que a criamos. Os corpos movimentam-se sob a cadência do desejo. Oh desejo! A pele resvala entre o calor e o frio. O fogo implode agora violentamente na alma. O cheiro do meu corpo guarda o do teu e o cheiro da chuva. E eu beijo cada gota de chuva na tua pele. Os lábios conquistam, a língua apossa.

 

Tudo se resume a condensação. Tudo. Cada gota de suor no teu corpo. Cada gota que escorre pela vidraça. Cada gota de chuva que sulca a areia lá fora. Cada gota que se junta ao salgado do mar. Cada gota que sorvo, deliciada. Cada gota tua. Cada gota.

 

 

 

 

 

Participação de Outubro

 

 

música: Feels like rain - Jonh Mayer & Buddy Guy

publicado por blue258 às 00:37
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Terça-feira, 28 de Setembro de 2010

...

Tomar café, logo depois de jantar, junto ao mar. O frio salgado que nos envolve o corpo, as malhas suaves de meia estação que nos acariciam a pele. Sente-se o retumbar do mar, a areia salgada,  o vento e a noite que brindam entre si. Sente-se a  serenidade de uma alma reconfortada. Um frio bom, que nos enrubesce a pele, acelera a circulação sanguínea e faz bombar o coração apressado. E apressado já ele é.

 

 

 

 

bum bum bum bum bum bum bum bum
bum bum bum bum bum bum
bum bum bum bum bum bum

 

 


publicado por blue258 às 00:58
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