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Blue 258

Blue 258

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01
Abr10

Procurei que a água levasse o que quer que foi que se colou a mim. O que se colou ao corpo, à pele, ao cabelo. Mas o que quer que seja que se colou a mim, entranhou na raiz do cabelo, bem fundo no couro cabeludo. E eu queria que as imagens que não me deixaram o pensamento durante o banho, desaparecessem. Pura e simplesmente, desaparecessem. As imagens do depois. As luzes acesas, o aquecedor ligado no quarto,  a televisão da sala ligada - estava a dar o benfica, porra! E o chão da sala. Tirem-me esta merda da cabeça, por favor. Como tiro isto da cabeça?

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01
Abr10

Chego a casa a estas horas e há todo um conjunto de sentimentos, sensações, ou lá o que é, que parece ter-se agarrado a mim, ao meu corpo, à minha pele, até ao meu cabelo. Queria uma forma de expurgar isto que sinto. Tento não pensar, tento empurrar esses pensamentos bem lá para o fundo da minha mente, tento não os processar, não os analisar, mas estão lá, e eu tenho consciência disso.

No entanto, queria deixar de me sentir assim. Queria uma forma de o conseguir. E tenho de dizer o que se segue, como forma de aliviar o que me corrói agora por dentro:

 

As cidades são deprimentes ao cair da noite.

 

Os edifícios de cor acinzentada são mórbidos.

 

Odeio hospitais, odeio o cheiro dos hospitais.

 

A fragilidade da vida humana assusta-me.

 

Não somos nada. Nada.

Debaixo desta chuva...

01
Abr10

 

Corro. E como corro. Corro pelo prazer de correr. Pelo prazer de caçar. Corro firme no objectivo que me guia pela noite fria. Corro cada vez mais. E mais. Salto. Uma e outra vez. Salto. Sinto a textura da madeira, da pedra, da terra. Absorvo cada detalhe. Registo cada movimentação. O instinto animal à flor da pele. O prazer, sempre o prazer.

A inteligência. A persistência. A atenção nos detalhes e a inabalável paciência. Aqui estão as razões do nosso sucesso.

 

Vislumbro mais à frente uma bifurcação no caminho - corro ainda mais, sem saber porquê. Encontro-te. Vinhas a correr, fazendo uso da tua forte musculatura. De porte maior que o meu, quase que esbarramos um no outro. Desprevenida, e ao mesmo tempo deliciada por este encontro, salto.

Salto! Cravo-te os dentes. E afasto-me. Sinto o sabor do teu sangue na boca. Aos poucos, vai-se envolvendo com a saliva, e o sabor do teu sangue, penetra-me lentamente no corpo. Mordes-me em resposta. Sinto os teus caninos perfurarem-me a pele, e o sangue a brotar. Não estremeço: já estava a espera. Enquanto que eu lambo o teu sangue, e o saboreio, tu manténs-te impávido, e sereno.  Gotas do meu sangue e da tua saliva tombam sobre a terra quente e húmida. Não lambes, não saboreias, mas sinto que o meu sangue também se entranha no teu corpo, aos poucos, lentamente.

Mantemos o olhar fixo um no outro. Muitos dizem que os nossos olhos brilham no escuro, poucos porém percebem que nos servimos deles para comunicações mais delicadas. Movimentos minúsculos da musculatura ocular bem como mudanças no tamanho das pupilas, expressam surpresa, perigo, alegria, reconhecimento e outras emoções.

Há muito que nos observamos mutuamente. Há muito que nos estudamos.

Parados, imóveis, todavia atentos, ao mínimo movimento, a cada detalhe - e por dentro, o sangue em ebulição, os músculos a ferver com a adrenalina resultante deste encontro.

Há muito que te sigo. Há muito que me chamaste a atenção. Há muito que o meu objectivo... és tu. Mais jovem, impetuosa, dou um passo para a direita - tu, em resposta, não moves um único músculo. O que resultará deste encontro?

 

 

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