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Blue 258

Blue 258

There's no place like home. Nothing as the sea.

09
Nov10

Tenho de ir a casa: faço-me à estrada, penso no mau tempo para conduzir, no mal-estar que sinto. Aguento: falta pouco. Chego e vou em direcção ao mar. Preciso de sentir a maresia, o vento, o frio. Preciso de me sentir viva. Preciso de abafar os pensamentos e lembrar-me de mim.

E é isso o que o mar faz: lembra-me de mim. E numa altura em que eu quis/quero/continuo a querer colo, o teu colo, fui até ao extremo, àquele sítio, aquele, onde o rio encontra o mar. Saio do carro. Sinto o vento forte. A humidade. O cheiro a maresia. Deixo que se entranhe em mim. O mar em mim. A força do mar. É nestas alturas em que temos de ir buscar forças bem dentro de nós, eu sei. E eu fui buscá-las ao mar. Deixei que o mar me lembrasse da minha própria força.

Nem as luzes vejo ao longe. Nada. Centro-me então no mar. Neste mar. No que me resta. No barulho ensurdecedor. Dor. Esqueço as luzes que não vejo e procuro o que está diante de mim. Vejo as águas da chuva cor de prata estendidas a meus pés. O céu, as nuvens que se reflectem nela. Viro-me novamente para o mar. Para o mundo que espera por mim.

Regresso com o sentimento que me pede para arregaçar as mangas e me diz que tenho de ser eu, e só eu, a pegar nos pedaços e a construir o que quero para mim.

 

 

 

A casa dos meus avós

17
Mar09

É inacreditável como uma casa pode representar tanto, ser tanto, respirar vida como se aqueles que nela moram lhe dessem o alimento que a faz ter alma. Nestes casos, o edifício em si funciona como um prolongamento da família que lá habita - é um fiel representante dessa família: da sua personalidade, dos seus humores, de todos os grandes momentos da sua vida.

Quando passo e olho para a casa, sou subitamente assaltada por memórias que discorrem incessantemente umas atrás das outras - memórias tão reais ( quase ) como a própria vida. Recordo aqueles que lá nasceram e depois partiram para também eles, terem os seus filhos; recordo netos que por lá tanto brincaram, aprenderam, cresceram - e todos, mas todos, deixaram um bocado de si naquela casa. Por isso aquela casa era como se fosse um ser vivo, tinha personalidade, carácter, alma - representáva-nos a todos, e todos nós a representávamos a ela. Agora passo por lá, e todas estas memórias, vivas, tão vivas - ainda tão vivas - atropelam a minha mente inquieta. Agora passo por lá...e o que vejo é, e apenas é...uma casa, sem habitantes, mais escura, denegrida - talvez até pelas afrontas do tempo-  mas concerteza pela ausência de vida. Agora passo por lá, e dói forte o peito - pergunto-me onde estão aqueles que enchiam aquela casa de vida -onde estão eles, que agora já não estão aqui porque aquela casa já não mostra ter alma. O peito dói tanto que compreendo agora: já não é só a casa que não tem alma - também a mim me faltam pedaços... pedaços que lá deixei.