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Blue 258

Blue 258

# 49 O cheiro da chuva

03
Out10

O vento perde-se em brincadeiras: enleva docemente as primeiras folhas caídas do Outono. Enleva-nos a todos na doçura do frio, este frio que é bom, que nos abraça no calor do nosso corpo.

Já as nuvens se movimentam no céu ainda azul - a chuva não tardará muito - dirijo-me para casa, embalada pela frente fria. O meu olhar perde-se ao longo da costa, no areal branco, no mar em tons de azul, nas rochas negras. Ergo o olhar, perco-me na imensidão do horizonte, deslizo pelo céu polvilhado de nuvens. Envolvo-me nos meus braços. O frio. Este frio bom que pede aconchego, pede o calor do teu abraço.

Sinto as primeiras gotas de chuva acariciarem-me o rosto. Uma delas desliza pela pálpebra direita; resvala nas pestanas e pende, e ali permanece, presa num hiato de tempo, querendo lançar-se no rosto e ao mesmo tempo querendo ali permanecer. Outra gota beija-me os lábios: prendo-a, lambendo os lábios e retendo o seu sabor. Deslizo a língua pelos lábios. Penso no teu sabor. Mordo os lábios. Demorarás muito a chegar? A casa, aquela, na praia, sem vizinhos por perto.

 

 

Down here the river, meets the sea
And in the sticky heat I can feel you open up to me
Love comes out of nowhere, baby, just like a hurricane
And it feels like rain and it feels like rain

Lying here underneath the stars right next to you
And I'm wondering who you are and how do you do? How do you do, baby?
Clouds roll in across the moon and the wind howl out your name
And it feels like rain and it feels like rain

 

Deixo a porta aberta para que os aromas de Outono se instalem, mesmo sem pedir licença. Sente-se a humidade no ambiente da sala. O cheiro da chuva que já cai lá fora. Aquela chuva boa, que cai como que sem querer. As cortinas corridas emolduram a vidraça  que espelha o extenso areal e o mar que o banha. Perco novamente o olhar no horizonte. Demorarás muito a chegar?

 

Oiço-te chegar. Estacionas o carro e já os teus passos se dirigem para a porta da frente. Aproveitas para entrar em casa, vendo o mar, absorvendo o cheiro a maresia, deixando que o salgado tempere a doçura do teu rosto. És como eu: amas este mar. Faz parte de ti, tal como de mim. Somos feitos do mesmo.

Saio para abraçar-te no alpendre. Recebes-me com um sorriso. Eu, com o coração. Ambos em silêncio; sabemos que chegaste a casa, e que agora sim, estou em casa. Eu sou tua e tu és meu. Passo as minhas mãos pelo teu rosto. Olho enlevada para o teu olhar profundo, para esse sorriso que me prende, passo a mão direita pelo teu cabelo, as pontas dos dedos brincam com as gotas de chuva. Seguras a minha mão esquerda com a tua, aproximas os lábios, e beijas-me a pele. O meu coração estremece. Eu sou tua e tu és meu.

A minha mão direita acaricia-te o rosto, os dedos tocam os teus lábios ao de leve. Deslizo pelo pescoço. Seguro-te pela nuca  e aproximo o meu corpo do teu. Absorvo o teu perfume, o teu cheiro, beijo-te com a respiração. Prendes-me junto a ti, envolves-me nesse teu abraço. Enlevas-me como faz o vento outonal. Sei amar-te. Rendo-me ao teu abraço. E rendida, beijo-te ao de leve nos lábios. Vejo nos teus olhos a cena que acabou de se passar, percebo como te deixaste estar, como compreendes este ritual que eu não consigo deixar de fazer. Vejo-te sereno, de sorriso nos lábios. És a minha fonte de serenidade. És. E eu sou tudo, nos teus braços. Pouso a cabeça no teu peito, naquele sítio, naquele. E é quando te digo, vamos, vamos para dentro.

 

Ao olhar-te de novo, embevecida, derretida, pegas-me ao colo e levas-me para a sala. Pousas-me delicadamente no sofá. Beijas-me na testa, nos olhos, no rosto, no queixo, no pescoço. Finalmente, sinto a tua boca na minha e já o meu corpo implode de desejo. Abraço-te ainda com mais força. Sinto o corpo a querer prender-te com todas as forças. A roupa voa pela sala, cai tranquilamente no chão, enquanto que a tempestade, essa, somos nós que a criamos. Os corpos movimentam-se sob a cadência do desejo. Oh desejo! A pele resvala entre o calor e o frio. O fogo implode agora violentamente na alma. O cheiro do meu corpo guarda o do teu e o cheiro da chuva. E eu beijo cada gota de chuva na tua pele. Os lábios conquistam, a língua apossa.

 

Tudo se resume a condensação. Tudo. Cada gota de suor no teu corpo. Cada gota que escorre pela vidraça. Cada gota de chuva que sulca a areia lá fora. Cada gota que se junta ao salgado do mar. Cada gota que sorvo, deliciada. Cada gota tua. Cada gota.

 

 

 

 

 

Participação de Outubro

 

 

Uma longa viagem

19
Ago10

Percorreste um longo caminho para chegar até mim. Encontraste-me estendida no chão frio de um quarto escuro. Desolada. O sol não chegava até mim, não me tocava na pele, não me iluminava o olhar, não me temperava a alma. Mas tu chegaste até mim. Abriste logo a porta,  e entraste  de rompante, oferecendo-me o teu calor, envolvendo-me. Tocaste-me ao de leve, na pele gélida. No mesmo sítio onde  pousaram os teus dedos,  os tons transmutaram-se de azuis árcticos para vermelho sangue. Ajoelhaste-te junto de mim. Encerraste o meu mundo no teu abraço. Num só abraço. Abraçaste-me, e senti  o recobrar das forças.  Beijei a tua respiração, e o impulso propagou-se  freneticamente pelo meu corpo. O teu fôlego reacendeu em mim a ânsia de viver. De correr, saltar, cair e levantar de novo. A tua pele tocou a minha, e o teu perfume enfeitiçou-me. Com o teu olhar, eu voltei a ver. Os meus olhos beberam dos teus e eu voltei a sorrir.

 

Fiz uma longa viagem até ti. Cresci. Em mim. Em ti. O percurso fez-se doce, em passos embalados pela ternura. Em mel. E é a caminhada que fizemos lado a lado que importa. O céu estrelado sob o qual perdemos o fôlego. O amor sob a luz da lua. Essa viagem. A nossa.  Só nossa. Uma longa viagem.

 

 

Blue258, para Fábrica de Letras

 

 

 

"Disparou"

07
Jul10

Sentiu a bala atravessar-lhe a carne, o sangue quente a jorrar-lhe do orifício minúsculo. Cedeu ao doce entorpecimento que se apoderava do corpo. Da alma. Não sabe em que momento da sua vida sofreu o tiro, nem consegue perceber como  pôde a bala atravessar a pesada e dura armadura que envergava há anos.

Coloca a mão direita sobre o peito. Nem procura estancar o rio de sangue que lhe brota do coração. Deixa-o fluir por entre os dedos, e os olhos hipnotizados perdem-se entre a pele e o vermelho vivo. Parece obter um prazer sádico. Não sabe se chore, se grite, se sorria. Ao seu rosto aflora este misto de emoções, e ficamos sem perceber se é dor que sente. Não será dor com certeza. O gelo vermelho que lhe revestia o coração, corre agora fluido e livre, dentro e fora do seu corpo. Sente-se feliz. Sente-se vivo.

 

Com o escalar do entorpecimento que lhe invade o corpo, acorrem-lhe ao pensamento momentos vividos, e pergunta-se qual deles terá sido o  premir do gatilho.  As palavras doces que o entonteceram de ternura. O mel que os envolveu,  aos dois, sinuosamente, prendendo-os numa teia mortal. O desejo que inflamou o coração - o mel que ardia nas tochas e lhes iluminou o caminho. O primeiro encontro - o nervosismo inicial, a cumplicidade subliminar, a ânsia de se encontrarem - em si mesmos. Terá sido a forma como ela encetou três passos e se entregou no seu abraço? Ou a forma como ele a enlevou, colocando os braços em volta dela, encostando o rosto ao seu cabelo, sentindo-lhe o perfume, a pele, o coração a bater descompassado no peito encostado ao seu?

O relógio contou segundos, ou talvez minutos, em que permaneceram abraçados num hiato de tempo em que tudo à sua volta desapareceu. Sem tempo, sem espaço. Acredito hoje que os planetas perderam o movimento de translação e até a Terra perdeu a sua rotação. Corpos colados, e um eixo invisível entre os dois.  A Humanidade evaporou como o gelo do coração, e nada mais parecia importar. Só os dois, e apenas os dois.  Naquele momento que deixou de existir, deixou de ter tempo, vontade. Mas que até hoje perdura, e se sente na ponta dos dedos.

 

Poderá ter sido este o momento em que disparou. Ou então quando se beijaram. Se bem que ela, com a cabeça pousada no peito dele, já o beijava. Já o amava.

Aos poucos, erguia o olhar na trajectória do dele. Deixava-se inebriar com o perfume da pele dele, e talvez por isso, a mão tremia. E ao disparar, falhou. Mas afinal, qual dos dois disparou? Terá sido ela, terá sido ele? Como? Se estavam abraçados? Em que momento poderiam ter manuseado a arma negra que lhes trespassou a alma? Não podiam. Não disparam. O tiro surgiu implacável no ar e atingiu-os aos dois. A bala atravessou primeiro o corpo dele, bem no coração, e a ela, mesmo acima do seu. O metal perfurou impiedoso a carne, quebrou as amarras do músculo, verteu o sangue que lhes circulava nas veias. E o sangue dele, misturou-se no dela. E até hoje, o sangue  dela corre com ele lá dentro. Quem disparou?

 

Blue258, para Fábrica de Letras