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Blue 258

Blue 258

Cartas à Mil Vezes Mais #1

25
Jan11

 

 

Minha querida MVM,

 

Eis-me aqui de novo, a lembrar-me de ti. Recordo os mergulhos no rio, a corrente, o frio... o sol que nos acalentava o rosto, quando nos sentávamos naquela pedra, mesmo no meio do rio. O calor que por momentos nos inundava e afastava o frio que nos gelava a alma. Porque isto de ter a alma gelada, não é fácil, nada fácil. E tu sabes... tão bem.

Escrevo-te hoje em tom de desabafo. Tantas vezes precisei do teu ombro e tu do meu, mas hoje, sim hoje, é mais um desabafo. Tenho de dizer isto a alguém que me compreenda, que perceba aquilo de que estou a falar. A vida continua (continuou) e eu, tal como tu, que tanto olhava para aquela margem à espera de um sinal, deixei-me levar pela corrente. Não me abandonei a ela, não, isso não, mas deixei que me levasse. Mergulhei, nadei, deixei a pele secar ao sol só para depois mergulhar de novo. Pelo prazer de mergulhar.

Os dias foram passando, a vida impôs-se, como só ela se sabe impôr, e eu, acabei por pensar cada vez menos... naquele abraço. Cheguei ao cúmulo de ontem me passar pelo pensamento o seguinte: "penso cada vez menos em ti". Cheguei quase ao ponto de o escrever... mas se o fizesse, seria como registar uma verdade que me doía, que me feria. Não o fiz.  E hoje, hoje, dei por mim a pensar nele, outra vez nele. No sorriso, no abraço, no calor... Senti este pensar de forma intermitente ao longo do dia. Algo me levava até ele, e por uns breves momentos, pensava nele. Sinto tê-lo feito de forma quase inconsciente ao longo do dia. E agora à pouco, ao início da noite,  quis, tu imagina só, quis ligar-lhe só para ouvir a voz dele. Poderíamos falar do tempo, qualquer coisa que fosse, mas o que eu queria era mesmo ouvir a voz dele. Só pelo prazer de o ouvir. MVM, tu diz-me, diz-me, isto não é de loucos? Numa altura em que eu até tenho uma ou outra distracção, em que supostamente deveria andar entretida com outras coisas, volto a pensar? Este pensar que é um recordar? Um sentir?

Minha querida, responde-me o quanto antes. Ajuda a sossegar este coração que é tão parvo. Porque tu percebes... tu sentes. Da mesma forma. Esta forma que transcende as palavras. Este sentimento que inunda as letras.

 

 

Um abraço, daqueles. Sempre.

Beijo, Blue.

 

 

Lareira, vinho alentejano e boa companhia

04
Dez10

E perceber que, afinal, fui eu a primeira a aprender algo. As primeiras três horas passei-as bem. A partir de um determinado momento, culpa do alentejano, digo eu, infiltravam-se no meu pensamento imagens que eu tentava bloquear à força toda. Meu amigo, a investida americana ao Japão na segunda grande guerra, deu-se na minha cabeça. Porque, meu amigo, a partir de determinado momento, o esforço colossal que eu tive de fazer para controlar o que queria, para me controlar, lançou-me um uppercut traidor que quase me leva ao tapete. Percebi não ser capaz de o suportar. Pensei logo em me cortar. Às saídas, à amizade, a tudo. Pensei mesmo: a partir de hoje, corto. Com tudo. Pode ser que um dia regresse. Ao que restar. De mim. De ti. Do nós que nunca foi. Ou foi. Num momento qualquer em que paraste o tempo.

 

 

E hoje, hoje, tiro as luvas e atiro-as ao chão. Não luto mais. Percebi que estava a lutar contra mim mesma. Desferia socos certeiros a mim própria. E os meus golpes doem-me. Deixam-me dorida de uma forma que se sente de dentro para fora. E esta é a forma que mais dói.

 

Atiro as luvas ao tapete. Não luto mais. Raio de coração que se mete em cada uma! E sim, a culpa é do coração. Do coração que é parvo.

Dos clicks

25
Nov10

Dizes que não estás à procura de nada (de ninguém). Aliás, passas os últimos meses a repeti-lo aos amigos mais próximos: não quero ninguém nos próximos tempos, não quero ninguém. Quero estar sozinha, quero poder ser eu. Eu. Quero um tempo para mim, dizes tu. E acreditas no que dizes, sabes que é verdade, sabes ser aquilo que precisas, aquilo que queres, mesmo que aos olhos dos outros possa parecer estranho. Mas é o que queres. É o que sentes. Correu-te mal, ou não - porque estas coisas não correm mal, são como são, e com tudo o que vives, aprendes - aquilo de seguir o coração.

 

— ... 

— Segui o meu coração até aqui. Segui o meu coração até ti. 

— E por isso vales ouro.

— ...

 

Se naquele momento me pareceu bater de frente num beco sem saída, pouco depois compreendi que nada na vida são becos sem saída. São encruzilhadas, isso sim. Entroncamentos, diria eu. Tens um tempo para te deixar estar, indecisa/o sobre o rumo a tomar, duvidas sobre qual será o próximo passo a dar. Demoras o teu tempo, o tempo que é sempre teu, apenas teu. E a dada altura, dás por ti a caminhar, a seguir em frente. Porque é inevitável seguir em frente. Por mais que isso te custe. Por mais que... ainda te lembres. O raio do coração não te deixa esquecer tão facilmente. Não. É parvo, quantas vezes o disse eu? O coração é parvo.

 

Ainda há dias pensava eu: este blogue já foi pele, paixão e... tu. Porque foi. Escrevi as coisas mais lindas,  ditadas pelo coração. Senti. Orgulho-me delas. Orgulho-me de ti. De mim. De teres aparecido na minha vida. Porque foste importante. És. Tanto. Mas a vida continua, e eu deixei-me levar, empurrada pela inevitabilidade das coisas. Estava numa fase em que não queria que me falassem em seguir o coração, em deixar falar o coração, estava, confesso que estava. Mas o coração prega-nos partidas. Oh se prega. E aqui entram os clicks. Pois é. Os clicks.

 

Os clicks são como que sopros no coração - fazem-te sentir uma fraqueza estranha imiscuída na força que sentes, que sabes sentir - e são um problema, oh se são. Podes estar determinada/o em não os querer, mas eles dão-se sem sequer pedir a tua permissão. Podes lutar contra eles, dizer que nem pensar, que não queres, mas quando se dá o click, não há volta a dar. Está lá, e é como se tivesse aberto uma janela no coração quando havias decidido fechar a porta. Fechado para obras. Era o letreiro que inconscientemente pensavas ter pendurado à porta. Mas esqueces-te que não mandas no coração. E que o coração é parvo.

 

 

 

 

 

Dás por ti a ter que lidar com algo que dizias não querer. Começas por querer esconder, até negar, mas tu sabes como estas coisas funcionam. Chegas a um ponto em que por mais que tentes, não o consegues ocultar. E esta história toda ainda se torna mais complicada quando do outro lado, também se dá o click. Porque deduzo que pudesses sentir um click e do outro lado não ser correspondida/o, o que tornaria as coisas muito mais simples. Pensas tu. E nisto dos clicks, também entram os sinais. Os sinais que procuras evitar e que mesmo assim não consegues controlar. E o que é que tu fazes? Tentas mostrar algo que não corresponde à verdade, iludir o que sentes, e que ainda nem sequer sabes bem o que é, e cuja dimensão ainda desconheces por completo. Confundes a pessoa que está do outro lado. E recebes os mesmos sinais trocados de volta. Porra que o coração é mesmo parvo! Pensas até estar destreinada/o destas coisas - e se calhar, na verdade, até estás. Mas não estamos sempre?

 

Mas quando há algo, não há como negar. Nem como esconder. Quem está de fora, percebe, percebe aquilo que queres esconder, ou que ainda te negas a aceitar. E tu vês-te envolvida/o. Resistes. Mas acabas por te deixar que te envolvam ainda mais. Mas como o coração é parvo, e parecemos sempre novatos nestas coisas do coração, temos medo. Damos um passo para logo depois darmos dois atrás. E disso eu não gosto. Sou controlada. Muito. Demais. Até um ponto. Gosto de saber com o que posso contar. E não gosto nada de me ver assim envolvida. Que é bom, é. Mas até certo ponto. Quando se assume, quando o colocas em palavras, cruza-se uma linha, e todo e qualquer retrocesso que eu me veja obrigada a fazer depois, incomoda-me. E muito. Acabo a pensar em que deviam existir uns requerimentos quaisquer em que se pudesse pedir o impedimento destes clicks. Porque não estava mesmo nada à espera. Porque não os procurava. Mas isto serve para aprender que estás sujeita/o. Ao que te dita o coração. E depois? Depois dás por ti a ter de fazer controlo de danos. Vá lá que sou perita nisso.

 

 

E o que decides fazer? Deixar-te ir. Viver um dia de cada vez. Não ter expectativas. De nada. De ninguém. Viver a tua vida, seres tu própria/o e esperar que o coração não te volte a pregar partidas tão cedo. Porque lá no fundo, não estás à procura de nada. Mas compreendes que mesmo que não procures, mesmo que tentes caminhar pela berma da estrada, estás sujeita/o a embates. A atropelamentos.

 

 

Eu não sei quem trago comigo (quer dizer, lá no fundo, até sei - sabe o coração, que é parvo)

09
Nov10

 

Eu fui devagarinho, com medo de falhar, não fosse esse o caminho certo, para te encontrar. Fui descobrindo devagar... cada sorriso teu. Fui aprendendo a procurar, por entre sonhos meus. Eu fui assim chegando, sem entender porquê. Já foram tantas vezes tantas... Assim como esta vez. Mas é mais fundo o teu olhar, mais do que eu sei dizer. É um abrigo pra voltar ou um mar pra me perder.

 

Lá fora o vento nem sempre sabe a liberdade. A gente finge mas sabe que não é verdade. Foge ao vazio enquanto brinda, dança e salta. Eu trago-te comigo... e sinto tanto, tanto a tua falta.

 

Eu fui entrando pouco a pouco. Abria a porta e vi que havia lume aceso e um lugar pra mim. Quase me assusta descobrir que foi este sabor que a vida inteira procurei,  entre a paixão e a dor.

 

Lá fora o vento nem sempre sabe a liberdade. Gente perdida balança entre o sonho e a verdade, foge ao vazio, enquanto brinda, dança e salta. Eu trago-te comigo... E sinto tanto, tanto a tua falta.

 

 

 

P.S. A minha menina dos abraços tem uma pontaria...

Do coração que é parvo

01
Nov10

 

Há uma miúda, a Blue, que diz que o coração é parvo. Se é parvo ou não, essa não é a questão. O que conta, o que importa mesmo, é o que se sente, o que alguém nos faz sentir. Porque acreditem, podemos estar com uma pessoa e não sentir absolutamente nada - o coração em estado de repouso condicionado como se a velhice tivesse tomado conta de nós antes do tempo; podemos cruzar o caminho de outro e sentir o coração bater descompassado - ah, afinal estou viva, ai como bate este coração, de um vermelho fulgurante que me trespassa a alma.

E ao passar por esse alguém na rua, sentimos o coração bater a mil. Ao vislumbrar um só pedacinho seu, sentimos o abalo do coração. E isso, meus amigos, é a forma do coração vos dizer: segue naquela direcção.

O que fazes parada(o)? Corre! Segue o (teu) coração.

 

 

 

 

 

Pouco importa como começou (ou como começam) todos os assuntos do coração. De alguma forma começam, mesmo sem se procurar, mesmo sem se saber, mesmo sem nos apercebermos logo de seguida. Começam. Acontecem. Dão-se. Damo-nos.

 

 


It started out as a feeling
Which then grew into a hope
Which then turned into a quiet thought
Which then turned into a quiet word

And then that word grew louder and louder
'Til it was a battle cry

 

 

O coração quando sente, não nega. Negamos nós por ele, batendo o pé, incrédulos a princípio, e logo depois, contrariados por algo que sabemos não poder controlar. Finalmente, assumimos o que prova ser inegável: é impossível contrariar algo que já faz parte de nós. Seria negarmo-nos a nós próprios. Negarmos quem somos. Tentamos, todavia, calar o coração. Amordaçamo-lo. Sequestramo-lo. Fazemos dele refém. Mas ele não se cala. Ele não cede. Ele não verga. Procuramos então seguir outro caminho, percorrer um atalho, desviar por uma estrada secundária.

Queremos ludibriá-lo, e ele apercebe-se disso. Dispara continuamente balas de sentimentos. Tiros certeiros. Acerta-nos com cada um deles, e nós aguentamos, tentamos manter o passo firme, mas começamos a sentir a fraqueza,  sentimos o sangue esvair-se, quase tombamos, procuramos apoio, voltamos a erguer a postura, buscamos as forças para continuar, não sei eu onde, mas percebemos que não dá. Pensamos então que o melhor será então voltar atrás, mas nisto do coração não há voltar atrás, e ainda melhor do que voltar atrás, é cortar caminho, saltar muros, cair,  esfarraparmo-nos, sangrar mais um bocado, (re)abrir feridas, e levantarmo-nos, mesmo que a muito custo, mas seguir, seguir sempre o coração.

 

 


Never give up loving
Unless you have to
Never leave your lover
Unless you must
Cause it will haunt your
Empty heart forever
Til your body turns to dust

 

 

E se nos perdermos? Não sabemos o caminho. Sabemos onde queremos chegar, o destino, mas não sabemos como chegar lá. Não temos mapas, direcções ou indicações de um posto de turismo qualquer. Não. Temos de nos armar em descobridores e traçar o nosso próprio trilho. Se é difícil? É. Muito. Se encontramos sempre o nosso destino? Nem sempre. Se mesmo assim vale a pena? Vale. Quanto mais não seja porque nos vamos encontrando a nós pelo caminho. E só por isso, vale a pena.

 

 

I never loved nobody fully
Always one foot on the ground
And by protecting my heart truly
I got lost in the sounds
I hear in my mind
All these voices
I hear in my mind all these words
I hear in my mind all this music

And it breaks my heart
And it breaks my heart
And it breaks my heart
It breaks my heart

And suppose I never ever met you
Suppose we never fell in love
Suppose I never ever let you kiss me so sweet and so soft
Suppose I never ever saw you
Suppose we never ever called
Suppose I kept on singing love songs just to break my own fall
Just to break my fall
Just to break my fall
Break my fall
Break my fall

All my friends say that of course its gonna get better
Gonna get better
Better better better better
Better better better

 

 

 

P.S. E porque devemos deixar o coração falar, e porque estou farta de litígios entre a razão e o coração, o blogue terá um novo autor. Dentro em breve, o coração falará livremente.

Eu mando, e ele não obedece. O coração.

17
Out10

Escrevo apressada uma mensagem. Os dedos percorrem as teclas, na urgência de te falar. Escrevem a saudade. Desenham os contornos de um rosto que já delineou o meu. Espelham um olhar que marcou. Um sorriso que ficou. Na sua urgência, os dedos atropelam-se; são soldados em plena batalha. O passo marca o que aprenderam, o coração, o que almejam. E é nesta batalha, entre o coração e a razão, que prossigo.

 

O coração manda apressado, ordena sentimentos desenfreados como águas de um rio selvagem. Pontua margens nas quais me deito esperando por ti. O sol já vai alto. Mais umas horas e já se aduna na praia. Deixo que o crepúsculo espere comigo. Por ti... Por ti.

 

 

...

23
Set10

Este frio, esta chuva, trazem-me à memória momentos de extrema doçura. Será talvez por isso que sorrio. Apesar do frio, o meu corpo exala um calor intenso. Imagino que produzido pelo coração. É ele o detentor de todas as marcas de doçura. Palavras, carinhos, abraços, beijos. Entrega. Comunhão de almas. E o coração, que de parvo não tem nada, encerra em si o mel, preservando-o. Guardando-o como um tesouro. Guarda-te a  ti. Bem cá dentro do meu peito.

 

 

 

 

P.S. E hoje vou dormir com um sorriso nos lábios. Vou. Vou adormecer a pensar em ti. Vou. Embalada por uma banda sonora que é especial. É. Ainda é. E sempre será. É esse o poder de uma banda sonora. É esse o poder dos momentos mágicos gravados no tempo.