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Blue 258

Blue 258

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08
Dez19

Já não é novidade por aqui um post com palavras que poderiam ter sido escritas por mim. Novidade talvez seja deparar-me com um post de 2015 da Daniela e sentir parte dele tão actual. Porque é. Porque há coisas que são mesmo intemporais. Tanto.

aproximas-te de mim devagar, como quem tem medo que eu possa fugir, e abraças-me a alma na esperança de me entrares no coração. admiro a tua forma ingénua de sentires que me tens e me conheces inteira. mas o que tu não sabes é que, mesmo que a minha alma se deixe abraçar por ti e o meu coração te deixe entrar, há coisas minhas que tu não conheces. há coisas que tu não sabes. não sabes que antes de ti já alguém me abraçou a alma, morou no meu coração e me roubou pedaços dele. não sabes que eu nunca recuperei esses pedaços e que nunca os vou recuperar. 

pedaços que nunca vou recuperar. pedaços que me roubaram ou que eu dei de livre vontade. que eu dei, que tu dás,  quando dás mesmo sem saber o que estás a dar. que eu eu dei, que tu dás, quando dás sem pensar sequer que tudo tem um fim. porque na altura, naquele preciso momento, não consegues pensar em mais nada a não ser naquele começo. e dás. dás de ti. pedaços.

pedaços que nunca mais voltaram ao sítio, pedaços que nunca mais encaixariam no sitio mesmo que tos devolvessem. pedaços que mesmo que voltassem já não sentirias como teus. porque tu mudaste. porque tu mudas. quando dás de ti. quando te roubam pedacinhos. e quando te roubam pedacinhos destes, tão importantes, tão essenciais, segues o teu caminho com a sensação de que foste roubada(o). vives os dias com a sensação de que te falta algo. sentes o vazio. o frio que aos poucos se apodera de ti. e, se não tens cuidado, esse vazio toma conta de ti. preenche-te e rouba-te ainda mais pedaços. perdes um pedacinho por cada vez em que pensas no que não foi. perdes um pedacinho novo enquanto usas os teus dias para reviver o que já foi. e vais-te perdendo aos poucos. pedacinho a pedacinho.

descobres então que consegues preencher os pedacinhos que te faltam. que no final de contas, tu és construção constante. que afinal, derrubarem-te muros e paredes resulta naquilo que tu és hoje. 

 

 

E isto dos pedaços

12
Abr16

Tem sido inevitável para mim pensar no tempo dedicado (quando o que eu queria dizer era desperdiçado mesmo) a uma pessoa quando se está numa relação. Quando se investe, quando nos damos, porque nos damos de facto - damos o melhor e o pior de nós.  Deixamos de ser um "eu" e com outro "eu" passamos a ser um "nós". Nós somos saídas, jantares, somos brincadeiras, somos gargalhadas, somos obrigações e deveres; somos tudo o que já éramos e mais ainda porque somos também tudo o que o outro é. Ou quase tudo.

Sempre acreditei que não nos devemos (e não podemos mesmo) esquecer da nossa individualidade, de sermos o "eu", de termos o nosso tempo, de sermos. Só. Porque somos, não deixamos de o ser. Não fizemos uma operação em que nos tornámos siameses: continuamos a ser quem somos, a pensar como pensamos e a querer o que queremos. Mas a vida em conjunto é isso mesmo e é inevitável que mude muita coisa. Cedemos, porque temos de ceder, fazemos espaço para o outro porque temos que o fazer. É assim uma relação.

E quando essa relação acaba? Como justificar aquele sentimento de tempo perdido? Poderemos nós afirmar que foi tempo perdido quando na realidade foi um caminho, que a dada altura, decidimos percorrer? Foi parte da nossa vida. Foi. E é disso que nos devemos lembrar.

E os pedacinhos de nós que fomos deixando ao longo do caminho? Um aqui, outro acolá, mais outro ali. E esses pedacinhos de nós, que demos, por vezes embrulhados em fita de cetim, com tanto cuidado, tanto carinho. E esses pedacinhos? O que é feito deles? Não podemos agora voltar atrás e recolhê-los um a um. E na próxima vez? Voltarei a dar mais de mim, voltarei a deixar pedacinhos meus ao longo do caminho? Parece que sim. E se um dia fico sem pedacinhos para dar?

...

04
Out10

«Meu amor, não quero mais palavras rasgadas. Nem o tempo cheio de pedaços de nada. Não me dês sentidos para chegar ao fim. Meu amor, só quero ser feliz. Meu amor, não quero mais razões para apagar o que nasce e renasce e nos faz acordar. A loucura faz medo se for medo o teu chão, mas é ar e é terra dentro do coração. É ar e é terra dentro do coração. Meu amor, não quero mais silêncio escondido. Nem a dor do que cai em cada gesto ferido. Quero janelas abertas e o sol a entrar. Quero o meu mundo inteiro dentro do teu olhar. Eu quero o meu mundo inteiro dentro do teu olhar. E hoje vê, a estrada é feita para seguir. E hoje sente, a vida é feita de sentir. E hoje vira do avesso o mundo e vê melhor. Deste lado é mais puro, é teu, é tão maior. Deste lado é mais puro, é meu, é tão maior.»

 

(Mafalda Veiga, Estrada)

 

 


Roubado do Abraça-me bem.  E ironia do destino: abraça-me bem.


#39 Lugares

01
Jun10

 

Lugares. Há algo nos lugares que nos marca. Parecem mesmo imiscuir-se em nós. E neles deixamos parte do que somos. Será esta simbiose que os torna especiais. Só nossos. Até os partilharmos com alguém. E mais alguém deixar lá parte de si. E levar consigo um pedaço daquele lugar. Aí deixam de ser só nossos. Foi assim que aquele lugar passou a ser teu também. E eu, tua.

 

Vem ter comigo àquele sítio. Aquele, junto à praia.

 

 

Espero por ti, encostada ao carro. Ao chegar, trazes aquele olhar traquina e sorriso malandro - cá para mim, voaste o caminho todo com ele nos lábios. Deténs o carro. Fixas-te em mim.  O teu sorriso abre-se ainda mais e os teus olhos fecham-se num olhar aberto.

Sais. Fechas a porta, encostas-te e deixas que os teus braços chamem por mim. Respondo encolhendo-me no teu abraço. Pouso a cabeça naquele sítio, naquele... e deixo-me estar. Sinto como se tivesse chegado a casa após uma longa ausência. Rosto rendido no teu peito e mãos tranquilas. Sim, cheguei a casa.

Respiro o perfume da tua pele na camisa. As minhas mãos acariciam o teu peito, as tuas costas, deixando-te enlaçado pela cintura. O meu rosto não descola do teu peito, e timidamente, os meus lábios beijam-te a pele através do tecido. Sinto o calor do teu corpo. A tua respiração. Sinto as tuas mãos acariciarem-me as costas com doçura. Envolves-me num abraço doce, suave, forte e destemido.

 

Lembro o primeiro abraço. E volto a sentir-me miúda nos teus braços. E tu, tal como da primeira vez, por me sentires miúda ou a ânsia de te ter, deixas que a ternura tome conta de ti. E esperas preso num momento que quer mais e ainda assim quer segurar o agora.

Permaneço abraçada a ti, rosto deliciado no teu peito. Os teus lábios beijam-me os cabelos, depois o rosto. Sinto a tua respiração quente que se imiscui na minha boca. Procuro resistir. Fazer perdurar aquele momento.

Os meus lábios beijam o teu peito. Em pontas de pés, beijam o ombro... o pescoço. Tocam ao de leve na tua pele. Absorvem o teu cheiro. Molhados,  beijam-te novamente a pele. Conquistam o teu sabor.

 

Follow me now
To a place you only dreamt of
Before I came along

When I first saw you
I was deep in clear blue water
The sun was shining
Calling me to come and see you
I touched your soft skin
And you jumped in with your eyes closed
And a smile upon your face

 

 

Apercebo o meu corpo que já se insinua contra o teu. E o teu que começa a responder ao apelo do meu. Mordo-te delicadamente o ombro... o pescoço. Apercebo a tua boca que quer a minha... e resisto. Mordo-te o outro ombro. Beijo-te a pele... o pescoço. Perco-me no teu pescoço, no teu perfume, no cheiro da tua pele. Perco-me. No teu abraço. Encontro-me... em ti.

Sinto com se não te tivesse à muito. Uma saudade que rói por dentro. Uma fome... de ti. Não resisto mais... lanço-me no teu beijo. Os teus lábios esperavam impacientes pelos meus e as tuas mãos acompanham-nos agora. A tua boca recebe a minha, ambas insaciáveis. Queriam-se insaciavelmente e beijam-se agora insaciáveis. Um beijo que é querer. Entrega. Um beijo que somos nós. E que nos reduz. A um beijo.